Fanfarronice punk

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O baixista/vocalista Fat Mike exibe o modelito punk meretriz no movimentado show do NOFX“Este é só mais uma noite para mim, mas vai ser a melhor noite das vidas de vocês”. É o que diz um punk rocker das antigas debaixo de um corte moicano rosa, trajando um vestido de meretriz de rua sem vergonha alguma. Fat Mike, muito menos “fat” que em outras épocas, lidera o NOFX e não está para brincadeiras. Ou, por outra, está, sim, tudo em nome da diversão, num certeiro prenúncio do que seria uma verdadeira noitada de punk rock no Circo Voador, nesta sexta (11/12), no Rio. O grupo, que tem o hábito de conversar um bocado com a plateia, faz jus à fama, o que, ao menos dessa vez, não chega a tirar a pegada do show – ao contrário – contribui para o espetáculo como se maduros fossem (e são) público e banda. Mas, ainda assim, eternos punk rockers adolescentes. Não há futuro, lembremos.
A turnê é marcada pela apresentação, na íntegra, de “The Decline”, espécie de ópera punk rock cujos 18 minutos ocupa todo o EP que leva esse nome, lançado em 1999. A música, anunciada por Mike como “especialmente para os fãs reais do NOFX, se você não for fã de verdade, dê o fora daqui”, é tocada com todas as suas variações, incluindo solos de guitarra, virtuose do baixista, e as incursões de trombone do bom guitarrista El Effe. Numa delas, o baterista Erik Sandin sai de trás de seu kit, assume uma terceira guitarra e toca junto com o grupo, segundo consta, pela primeira vez, com um roadie nas baquetas, sem ensaio, tornando a noite realmente com ares de especial. A instrumental “What Now Herb?”, de seu lado, é apresentada como “Rio Is Better Than Alcaline Trio”, e tocada quase como uma bossa nova, com letra improvisada que homenageia o Rio. Tudo fanfarronice.Na ópera punk ‘The Decline’, o baterista Erik Sandin toca guitarra com Fat Mike e com Eric MelvinPorque o som do NOFX de hoje está longe do HC melódico que deu fama ao grupo, muito mais punk rock de verdade, por assim dizer. Fat Mike e a banda têm boas lembranças da cidade. Ele cita o show de 2006, no gigante Metropolitan, e se lembra da fatídica apresentação de 1997, numa espremida e improvisada Fundição Progresso, ainda em fase de construção, que quase não aconteceu por óbvia falta de segurança (foto aqui). Muitos sob a lona do Circo confirmam que estavam lá, mas, de lá pra cá, muita coisa mudou, incluindo o humor do baixista/vocalista, que parece distante daquele sujeito blasé que concedia entrevistas comendo fast food sem dar a mínima para os entrevistadores. Daí o modelito, as brincadeiras no palco e formato do show em si, que – acredite se quiser – funciona pacas. Muito ajudado pelo público, que, se não compreende quando é chamado de “poser” ao mostrar estampas de camisetas, conhece praticamente todo o repertório apresentado em uns 100 minutinhos de muita algazarra em forma de roda punk.
Se a própria “The Decline”, com seus 18 minutões – uma eternidade punk – agrada, imaginem “Don’t Call Me White”, omitida da última vez (relembre), cujo título é entoado como palavra de ordem, no início do bis. Ou a sequência de três músicas em um minuto que inclui “IQ32”, “Monosyllabic Girl” e “I’m Telling Tim” sem dó nem piedade. Ou ainda “Leave It Alone”, na primeira parte. Em “Franco Un-American”, já no bis, finalmente um teclado, que serve mais para dependurar uma bandeira do movimento gay é usado, num outro exemplo de fanfarronice do quarteto. Nem quando uma moçoila mais animada sobe nos ombros de um amigo para tirar a blusa tem a provação da banda, muito menos os gritos de “NOFX! NOFX!”, respondidos como “Estamos aqui! Estamos aqui!”. “Não faz sentido nos chamar quando estamos no palco, entende?”, argumenta Fat Mike.Farra também em cima do palco: Fat Mike ataca o guitarrista Eric Melvin com o baixo empunhadoO repertório passeia por quase todos os discos da banda, e – repita-se – quase não há música que passe batido pelo aprovo do público que enche o Circo Voador. Do trabalho mais recente, que leva o nome da banda, contudo, são só duas. “72 Hookers”, que quase não é notada em meio à folia punk rock, e “I Believe In Goddess”, uma paulada de menos de um minuto que agrada geral e leva à conclusão do punk de vestido: “viu como as músicas novas também são legais?”. Chama a atenção ainda o entrosamento de uma formação que já dura quase 25 anos. Uma plaquinha com o nome NOFX dependurada no fundo do palco é o único elemento decorativo e a luzes ficam quase o tempo todo acessas, o que enfatiza ainda mais o clima de stand up do show. Isso no palco, porque, no meio do salão o segundo esporte preferido é o lançamento de copo de cereja para cima. O primeiro? As inefáveis rodas punks que coroam o excelente show do NOFX.
Na abertura, o Zander sofreu com o pouco público que ainda chegava ao local, mas se deu bem porque tinha muita gente cantando as músicas do grupo. Isso porque o quarteto não nasceu ontem e já tem certos hits, como “Até a Próxima Parada”, que rolou em um inesperado bis, “Como Arde, Sô”, com um refrão colante e fácil de cantar, e “Todos os Dias”, que tem bela introdução. O instrumental do grupo tem crescido bastante, mas é preciso deixar para trás certa ancestralidade emo que em nada contribui. Nesse sentido, tocar para uma banda punk como o NOFX, cujo desleixo pelo HC melódico é evidente e só melhorou o grupo, é uma boa fonte de inspiração/referência.Stand up punk rock: Fat Mike aponta para o público em algum momento de zoação com os fãsSet list completo NOFX:
1- 60%
2- Dinosaurs Will Die
3- Stickin’ in My Eye
4- 72 Hookers
5- Quart in Session
6- Murder the Government
7- Leave It Alone
8- Eat the Meek
9- The Decline
10- I Believe in Goddess
11- IQ32
12- Monosyllabic Girl
13- I’m Telling Tim
14- What Now Herb?/Rio Is Better Than Alcaline Trio
15- The Moron Brothers
16- Perfect Government
17- Seeing Double at the Triple Rock
18- Fuck the Kids
19- Linoleum
Bis
20- Don’t Call Me White
21- Bob
22- Bottles to the Ground
23- Franco Un-American
24- The BrewsO Zander fazendo o bom show de abertura para um público ainda pequeno no Circo Voador
Source: ROCK EM GERAL